O Minimalismo E O Eterno Retorno Postado por Rodrigo Vinhas em nov 2, 2018
“É no seio do terreno sobre esta terra, nesta vida, que é preciso distinguir o que vale a pena ser vivido e o que merece perecer. Se em tudo aquilo que queres fazer, começares a te perguntar será que quero mesmo fazê-lo um número infinito de vezes? Isso será para ti o centro de gravidade mais sólido. Minha doutrina ensina: Vive de tal maneira que devas desejar reviver. É o dever. Aquele cujo esforço é a alegria suprema, que se esforce. Aquele que ama, antes de tudo, o repouso, que repouse. Aquele que ama, antes de tudo, obedecer e seguir, que obedeça. Mas que saiba bem aonde vai a sua preferência. E que não recue ante a nenhum meio. É a eternidade da vida que está em jogo. Essa doutrina é amável para aqueles que não acreditam nela. Ela não possui nem inferno, nem ameaças. Aquele que não acredita, sentirá, em si, apenas uma vida fugaz”. Fragmentos da obra “Vontade de Potência”, de Friedrich Nietzsche, escrita em 1881.
Um dos grandes desafios do ser humano é viver no presente, apesar de o presente ser de fato tudo o que temos, já que o passado não existe mais e o futuro não existe ainda. O valor da vida precisa estar sempre no que ela tem de mais valioso. O que existe de mais valioso na vida? A vida em si mesma. Dar valor à vida a ponto de que a vida seja o fim e não uma ponte para nos lembrar do passado outrora glorioso ou um esperançado futuro que esteja por vir.

Excesso de informação definitivamente não é uma coisa boa.

Estamos cada vez mais soterrados de informação. Arianna Huffington cita uma pesquisa realizada em 2010, no seu livro A Terceira Medida do Sucesso (nome péssimo, mas livro bom) que diz que a média de vezes em que uma pessoa pega o celular ao dia é de 150 vezes. Isso dá uma vez a cada seis minutos e meio. Hoje em dia, 8 anos depois, esse número deve ser assustadoramente maior. Estamos colocando muita informação pra dentro do cérebro e não temos capacidade de processar esse conteúdo de maneira saudável. Fica muito difícil discernir o que é importante e o que não é. Independente da questão “passado e futuro”, nos colocar 150 vezes por dia diante do celular é um escapismo da vida que está ali, acontecendo no presente. Vivemos a era da curadoria, onde o que mais importa é saber o que importa e Nieztsche nos mostra isso de maneira brutal neste fragmento, ao nos indagar: Se em tudo aquilo que queres fazer, começares a te perguntar: será que quero mesmo fazê-lo um número infinito de vezes? Isso será para ti o centro de gravidade mais sólido. Você gostaria de olhar para o seu celular por um número infinito de vezes? Não? Mas a média de pessoas que pega o celular 150 vezes por dia, ou seja, a cada seis minutos e meio, nos mostra o contrário. Acredito que uma maneira na qual possamos nos tornar o nosso próprio curador, e sabermos o que realmente importa, seja respondendo à pergunta proposta por Nieztsche e buscando um relacionamento mais profundo com as nossas atividades, pois isso é um elo de conexão com o presente. Quando eu decidi escrever este artigo, esse conceito caiu como uma luva; e o ato de escrever em si, me mostrou um caminho para eu fazer a curadoria da minha própria vida.

A vida pela vida vezes infinito.

É a cada momento que devemos decidir o que merece o nosso viver neste instante. A pergunta que Nietzsche sugere que façamos, sobre se gostaríamos de estar fazendo o que estamos fazendo infinitas vezes, implica um tipo de querer muito mais profundo. Não é aquele tipo de querer parecido com estar com vontade de comer um chocolate e assistir a um episódio de uma série, esparramado no sofá. Não! Quanto mais vezes for possível que a resposta seja sim e que a vida valha pela imanência da vida, melhor a vida é. Eu, nesse exato momento, escrevendo este texto, pesquisando para entender a minha maneira de como colocar em forma de palavras o que eu quero dizer, da melhor maneira possível e dentro das minhas limitações, por mais excruciante que seja a tarefa e por mais que eu esteja colocando tudo de mim aqui, ainda que exista a possibilidade de ninguém ler ou da reação das pessoas que lerem ser totalmente negativa, ainda assim, eu gostaria de continuar escrevendo, outra vez e outra vez. Pra sempre. Essa abordagem não tem um viés consequencialista e o pragmatismo rude de Maquiavel, tão comum ao mundo do capital. Ela indica que, se eu estou escrevendo este artigo, tirando tudo o que tenho dentro de mim, até as últimas gotas de sangue, suor e de lágrimas, e desejando escrever infinitas vezes, independente do resultado, posso me considerar um bom escritor. Essa abordagem é vitalista, se você precisa colocar alguma classificação, o que para alguns é importante. Quer dizer que eu vou fazer isso até o dia da minha morte? Não sei. O pra sempre pode mudar. Mas enquanto você estiver fazendo o que quer que esteja fazendo, faça desejando que seja pra sempre ou pare de fazê-lo. No momento em que escrevo este texto, estou apaixonado. Como no filme Gladiador, assim como o protagonista, o General Maximus, interpretado pelo Russel Crowe, às vezes, enquanto estou caminhando pelas montanhas, perto da minha casa, eu me pego dizendo para o vento, uma das frases mais famosas do filme: "Diga a ela que apenas vivo para abraçá-la outra vez, todo o resto é só ar e poeira". Quando estou ao lado dela, eu não quero que o momento acabe. Eu quero repetir aquilo e estar com ela outra vez. Enquanto estou beijando a sua boca, quero beijar outra vez. Enquanto fazemos amor, quero fazer outra vez. E, durante aquele instante, eu deixo de temer a morte. Esse é um sinal de estar vivendo no presente. Se você levar isso ao extremo, chega àquela alegoria em que o viciado acende um cigarro no outro. Nesse contexto, a vida boa ou ruim está na própria vida. Ela rejeita qualquer questão transcendental. A vida boa não está na ordem do Cosmos, como diriam os gregos, não está em Deus, como diriam os cristãos, não está na sociedade sem classes, como diriam os Marxistas, tampouco está nos resultados financeiros, como acontece no mundo do livre mercado. Não existe nada que seja transcendental à vida. Não está em ter prestígio, o que é uma obsessão da sociedade atual. Aliás, curiosamente, a origem da palavra prestígio provém do latim “praestigiae”, que se referia à ilusão ou a truques mágicos, o que serve para ilustrar bem esse ponto. As metas que perseguimos são transcendentes à vida, pois no minuto em que você atinge a meta e traz ela para a vida, a meta desaparece e então surge novamente uma outra meta, que mais uma vez, está fora da vida. O desejo então, desde que através de um critério rigoroso (infinitas vezes), deve ser o eixo que dá a direção da vida. Faça o exercício de se perguntar como o seu trabalho se encaixa nessa proposta. Como os seus relacionamentos se encaixam nessa proposta. Vai doer, mas vai lhe fazer bem.

O autoconhecimento como ferramenta para a jornada.

O que acontece é que nós não nos conhecemos muito bem. E, pior do que isso, não estamos nos esforçando para avançar nessa direção. Temos a tendência de nos julgarmos melhores ou piores do que somos e ambos os casos são perigosos. Não sabemos o que realmente desejamos. O que desejamos profundamente. E quando isso acontece, fica mais fácil aceitar o que acontece ao acaso, no estilo do Skank, que canta "Vou deixar, a vida me levar, pra onde ela quiser". E você acaba casando com a pessoa que aparece, tendo o trabalho que é mais "seguro", morando no lugar que dá, e quando você para, com o intuito de analisar a sua vida, você pensa: Que caralho estou fazendo aqui? Quando surgir essa pergunta, não se assuste. Ou se assuste. De qualquer maneira, é um ótimo ponto de partida.

Consciência e coragem para ser quem você é.

Aqui não existe certo, nem errado. O que é bom para um, pode ser ruim para o outro. Por isso que os exemplos são diametralmente opostos: esforço x repouso. Cada um que seja feliz à sua maneira, sem uma visão maniqueísta. A busca é pelo amor que, na definição de Spinoza, é a alegria com o conhecimento da sua causa. "Saiba bem aonde vai a sua preferência." Para adotar esse critério, que é extremamente severo, é preciso deliberar e tomar cuidado para não se confundir no diagnóstico. Se você tem uma meta, bate aquela meta, é reconhecido pelo seu resultado, recebe uma chuva de aplausos e fica em êxtase por isso, você pode pensar que é movido por metas, quando na verdade você é movido por reconhecimento. Se você é movido por reconhecimento, a partir de uma interpretação equivocada, você pode pensar que bater metas é o que você quer fazer infinitas vezes. Na publicidade, isso acontece de um jeito que às vezes é bizarro. Esses dias eu vi uma propaganda de uísque, que tinha alguns caras de uns 50 anos num barco, rodeados de mulheres mais jovens, e bebendo. Como se a felicidade da vida estivesse ao seu alcance, desde que você tenha dinheiro, mulheres e esteja enchendo a cara em um barco. Quantas vezes nós já compramos esse tipo de história?

Sucesso, fama e reconhecimento. Isso é tudo?

Temos exemplos de pessoas que tinham sucesso mundial, como Robin Williams, Amy Winehouse, Chester Bennington (Linkin Park), que tiraram a própria vida por não suportarem mais viver, apesar de todo o sucesso que tinham. Precisamos nos fazer essas perguntas: quem sou eu? quais são meus limites? quais são meus desejos mais profundos? É preciso tomar conhecimento de até onde vai o seu estômago e o que passa dentro do seu coração. No final, o enfrentamento da vida é inevitável, então vale a pena encará-la de frente, do jeito que ela é, e de maneira visceral. O imperador Marco Aurélio, no segundo livro de suas meditações, ao falar do corpo humano, usa as seguintes palavras: "Lama de sangue, ossos, renda de nervos, de veias, trança de artérias." Aqui a consciência é a ciência do próprio querer.

Não recue ante nenhum meio.

A partir do momento em que você se conhecer e decidir ser quem é, não faltarão aqueles que vão querer dissuadi-lo. Quando você decide agir de acordo com os seus desejos mais profundos, não faltarão aqueles que vão cobrá-lo o que é o politicamente correto. E você ouve frases do tipo: você tem que visitar os seus parentes, você tem que ir ao batizado do fulano, você tem que ir à festa de aniversário dos filhos do vizinho, você tem que se engajar politicamente, tem que comprar a sua casa, e aqui os exemplos podem ir ao infinito. Quantas vezes nós procuramos a infelicidade e nos surpreendemos quando ela aparece? Eu já fui em várias reuniões de negócios, com pessoas que eu não simpatizava, para discutir assuntos que não me interessavam, sobre negócios que eu não pretendia me dedicar a fazer. E na volta pra casa, puto da vida, eu ficava pensando sobre aquele tempo perdido e como me senti mal durante aquelas duas horas de blá-blá-blá. Dã! A única possibilidade saudável é desenvolver a resiliência, para ser autêntico e encarar o mundo que te agride, ao mesmo tempo em que você condena esse mesmo mundo a acatar as suas decisões e condena você mesmo a acatar as consequências das suas decisões.

O teatro dos bobos e a falácia da motivação.

Quantas vezes nos propomos a participar de cenas patéticas na vida cotidiana? Um dos melhores exemplos é na entrevista de emprego. Eu já interpretei os dois papéis, o do entrevistador e o do entrevistado. Em ambos os casos, segui o roteiro-padrão descrito abaixo, que segue um diálogo mais ou menos assim: - Por que você quer trabalhar aqui? - Porque me identifico com o propósito da empresa e, ao lado dela, quero ajudar a mudar o mundo pra melhor. - Você está engajado e comprometido com a nossa causa? - Claro, vou acordar todos os dias de manhã pensando na melhor maneira de eu contribuir, me integrar com o time e desenvolver o meu potencial. Parece piada, mas as pessoas levam esses diálogos a sério. E, no final do ano, tem aqueles eventos corporativos, nos quais as empresas premiam o "engajamento" e o "comprometimento" dos funcionários, que, hoje em dia, são chamados de colaboradores. O que na prática é submissão da própria vida para outros interesses, mas que os funcionários fingem que é interesse próprio e criam um falso senso de pertencimento, tão comum nesse ambiente corporativo de imbecilização em série.

A eternidade está em jogo.

Existem dois conceitos de eternidade diferentes. A eternidade cristã, da vida após a morte, que não é da que estou tratando aqui, e a eternidade do momento presente. Dizemos que o tempo corre, mas a verdade é que corremos junto com ele. O passado só existe quando falamos nele no presente, na nossa memória, ou quando nos refugiamos na nostalgia de um tempo que não é o nosso. Da mesma forma, as conjecturas para o futuro só existem, quando falamos a respeito ou ficamos ansiosos sobre ele em nossos pensamentos ou criamos esperança de que algo aconteça, mais uma vez fugindo para um tempo que não é o nosso. Geralmente os jovens vão para o futuro, imaginando as próximas viagens, as próximas realizações, as próximas metas e os velhos se lembram com nostalgia, dos tempos dourados da juventude. Em ambos os casos, abrimos mão da única coisa que existe que é o presente. A maior prova de que você está vivendo bem o presente é que você não consegue escapar para outros tempos enquanto faz isso. No momento em que estou aqui escrevendo, não consigo e não quero pensar em mais nada, estou aqui, focado na tarefa, da vida pela vida. A única coisa que acontece quando você não vive o presente é a falta de densidade e intensidade que você encontra na vida. Uma vida fugaz. Em um diálogo no filme "Quando Nietzsche Chorou" ele oferece o seguinte conselho a um amigo: "E se um demônio lhe dissesse que esta vida, da forma como vive e viveu no passado, você teria de vivê-la de novo? Porém, inúmeras vezes mais e não haverá nada novo nela. Cada dor, cada alegria, cada coisa minúscula ou grandiosa retornaria para você mesmo. A mesma sucessão, a mesma sequência, várias e várias vezes como uma ampulheta do tempo. Imagine o infinito! Considere a possibilidade de que cada ato que você escolher, Josef, você escolherá para sempre! Então toda vida não vivida permaneceria dentro de você! Não vivida... por toda a eternidade!"